Vizinhos que não dão inveja
Num ano em que a América Latina volta a registrar crescimento - com o Brasil à frente -, a Argentina e a Venezuela, vítimas de governos de pastelão, ficam para trás
Por FABIANE STEFANO | 20.01.2010 | 19h11
Para muita gente que viveu no Brasil nos anos 80, a cena deve ter parecido familiar: multidões invadem lojas para comprar o que encontram nas prateleiras e garantir produtos antes da remarcação de preços. Felizmente, as recentes imagens do corre-corre de consumidores nada têm a ver com o Brasil. Esse filme entrou em cartaz no começo de janeiro na Venezuela, fulminada por outro problema que os brasileiros já conheceram bem - uma espiral de inflação descontrolada. Para enfrentar a escalada dos preços, o governo do presidente Hugo Chávez recorreu a um artifício típico dos desesperados: a criação de um câmbio duplo. Para as importações de bens de consumo considerados supérfluos, como automóveis e eletroeletrônicos, a moeda local, o bolívar forte - em circulação há apenas dois anos -, foi desvalorizada. Se antes cada dólar podia ser trocado por 2,15 bolívares, agora são necessários 4,30. (Melhor seria trocar o nome da moeda para bolívar fraco, mas o autossuficiente Chávez, convenhamos, jamais faria isso.) No caso da importação de bens essenciais foi estabelecida outra paridade, de 2,60 bolívares por dólar. Ao mesmo tempo, Chávez sacou 7 bilhões de dólares das reservas internacionais do país para uma alegada política de substituição às importações - dinheiro que os críticos dizem que deverá acabar nos programas sociais populistas e bancar um aumento de 25% do salário mínimo. Tudo isso coroado por um racionamento de energia.
Na mesma semana, mais ao sul, ocorreu outro episódio que em nada causa inveja nos brasileiros. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, demitiu o presidente do banco central, Martín Redrado, após sua recusa em transferir 6 bilhões de dólares das reservas nacionais para um fundo recém-criado que teria entre seus objetivos o pagamento da dívida pública. Redrado, amparado por decisão judicial, ignorou a dispensa e disse que fica no cargo ao menos até setembro, quando expira seu mandato. O cabo de guerra entre a Casa Rosada e o BC argentino - coisa jamais vista mesmo nos piores tempos da economia brasileira - reforçou a desconfiança sob a qual a Argentina permanece desde o calote de 2001. “Esse conflito é surpreendentemente desnecessário, uma vez que o cenário para 2010 era positivo e a renegociação da dívida caminhava bem”, diz o economista Nicolás Bridger, da consultoria Prefinex, de Buenos Aires.Nos Estados Unidos, a Justiça chegou a congelar 2,7 bilhões de dólares em depósitos do BC argentino para proteger credores do país. Não é uma situação tão grave quanto a da Venezuela, até porque os argentinos terão em 2011 uma eleição presidencial que poderá mudar os rumos. (O favorito a ocupar a Casa Rosada é Julio Cobos, atual vice-presidente e desafeto dos Kirchner. Outro concorrente é o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri.) Os venezuelanos, sob o domínio quase ditatorial de Chávez, por ora não contam com esse consolo. Mas é fato que as coisas estão se deteriorando rapidamente na economia argentina. Definitivamente, não foi um bom começo de ano para nossos vizinhos. As confusões dos dois países destoam do clima otimista de boa parte da América Latina. Após registrar uma queda da ordem de 2% no produto interno bruto em decorrência da turbulência mundial, a região deverá crescer 3,6% neste ano, de acordo com estimativas do banco de investimento Merrill Lynch.
O BOM DESEMPENHO, PORÉM, não é para todos. Na liderança, logo à frente do Chile, está o Brasil, com perspectivas de emplacar um crescimento de 5,1% na visão do banco - e já há oráculos que projetam 6%. Pesam a favor o imenso potencial de consumo interno e um quadro de estabilidade, mesmo em ano de eleição presidencial. De acordo com projeção do Banco Central brasileiro, o consumo das famílias - fator que tem garantido o bom desempenho da economia nos últimos anos - deve ter nova expansão de 6,1%. O investimento também deverá crescer 15,8% em relação a 2009. O país parte ainda com a mais baixa taxa de inflação anual da década: o índice ficou em 4,3% no ano, próximo da meta do BC, e não há temor de que os preços degringolem nos próximos meses. “Hoje, o Brasil é sexy para os investidores”, afirma Dante Sica, economista- chefe da consultoria econômica Abeceb, de Buenos Aires. “E quem está buscando oportunidades na região vai preferir o Brasil a seus vizinhos encrencados.” Pudera: a confusão política argentina é mais uma má notícia numa sequência que inclui intervenções forçadas do governo na economia nos últimos três anos - entre elas, a limitação das exportações de carne e soja por meio de taxas e choques com empresas multinacionais. Nas importações, produtos do Brasil foram afetados por restrições disfarçadas. “Eles ampliaram a burocracia e hoje nossos clientes demoram em média 35 dias para conseguir uma licença de importação que antes saia imediatamente”, diz Alfredo Miguel Neto, diretor de assuntos corporativos da John Deere, que exporta máquinas agrícolas fabricadas no Brasil. “Por isso, nossas vendas para lá caíram.”
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Um ponto particularmente preocupante, tanto na Argentina como na Venezuela, é o comportamento dos preços. Os dois países vêm convivendo perigosamente com taxas de inflação de dois dígitos há tempo suficiente para acender a luz amarela. Na Argentina, o índice oficial relativo a 2009 fechou em 7,7%. Mas muitos economistas e consultores acusam o governo de Cristina de manipular os indicadores - que já teriam atingido o patamar de 15% e devem chegar ao fim de 2010 a 17%. “Precisamos de um plano consistente que promova o crescimento moderado e a redução da inflação para um nível inferior ao que era em 2004, de menos de 5% ao ano”, diz Néstor De Cesare, diretor da consultoria Allaria Ledesma, de Buenos Aires. Já a Venezuela detém hoje a mais alta inflação do continente: 27% em 2009. Com a desvalorização, há quem projete que o índice pode bater os 40% até o fim de 2010. “Não creio que haverá hiperinflação neste ano, mas não tenho a mesma certeza para 2011”, afirma Norman Bailey, presidente do Instituto para o Crescimento Econômico Global, um centro de estudos internacionais com sede em Washington, nos Estados Unidos. No desespero para segurar os preços, Chávez mandou o Exército ocupar lojas acusadas de remarcar as etiquetas. Mais de 600 estabelecimentos foram obrigados a baixar as portas. A rede Éxito, controlada pelo grupo francês Casino, sócio do grupo Pão de Açúcar no Brasil, foi acusada de especulação e será nacionalizada - o governo anunciou que suas 41 lojas passarão a fazer parte da Corporação de Mercados Socialistas. O shopping center Sambil La Candelaria, um dos maiores de Caracas, também deverá ser expropriado. “Praticamente, não há investimento estrangeiro e muito pouco doméstico”, diz Bailey. “Sem mudança de governo, não vale a pena pensar no mercado venezuelano.”
Apesar do impacto inflacionário que pode causar, a desvalorização do bolívar era dada como certa em face da fragilidade fiscal da Venezuela. O governo venezuelano obtém a maior parte de sua arrecadação do petróleo - item que representa mais de 90% das exportações. Nos últimos anos, mesmo exportando menos devido ao sucateamento da estatal PDVSA, os preços em alta sustentavam as receitas do governo. Com a crise internacional, tanto os preços quanto o volume de vendas caíram. Mesmo com a recente reação do preço, sem a retomada do volume o governo Chávez continua no sufoco. A canetada para desvalorizar o câmbio pode dobrar a receita de exportação de petróleo na moeda local, já que cada dólar do produto agora será convertido a 4,30 bolívares. Chávez planeja usar o dinheiro extra para reduzir a dívida do país. Antes da desvalorização, o déficit fiscal da Venezuela variava entre 6% e 8% do PIB. Agora, poderá registrar um pequeno superávit. O dinheiro que entrará com a desvalorização também deverá servir para a promoção de uma nova rodada de gastos sociais - e favorecer o desempenho governista nas eleições legislativas de setembro. Se Chávez afaga a população pobre com uma mão, por outro lado impõe uma rotina de restrições. No dia 9 de janeiro, instituiu um racionamento de energia elétrica de 4 horas diárias. Assim como os cortes de fornecimento de água, que se tornaram comuns desde novembro, a falta de energia gerou protestos, obrigando a suspensão do racionamento uma semana depois para os moradores de Caracas (no interior, a medida continua), e custou o cargo do ministro da Energia, Ángel Rodríguez. O recuo, porém, em nada resolveu os problemas na área energética. A estiagem deve atingir níveis críticos nos próximos três meses e reduzir ainda mais a produção das hidrelétricas. Apesar de suas imensas reservas de petróleo e gás, o país não dispõe de termelétricas para cobrir as fases de baixa. Por isso, indústrias de aço e de alumínio estão paralisadas.
É verdade que desgraça alheia não deve servir de consolo a ninguém, até porque temos nossos próprios problemas - e não são poucos - para resolver. Mas não deixa de ser um alívio para os brasileiros o fato de que algumas notícias, aqui, parecem ter ficado no passado.
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